quarta-feira, novembro 03, 2004

Valores do Mercado ou Valores do Jornalismo?

De uns anos para cá tem-se debatido a presença cada vez mais relevante dos grandes grupos económicos nos media, que se veio a juntar à, desde sempre discutida, pressão política.Em Portugal, a questão foi recentemente trazida ao debate público a propósito do caso Marcelo Rebelo de Sousa (MRS).

É cada vez mais evidente que os políticos deixaram de ser os únicos poderosos no que diz respeito aos media, a partir do momento em que em que os grupos económicos tornaram-se accionistas importantes nos meios de comunicação social privatizados. O poder do mercado é também exercido nos media e já não se fala numa pressão directa dos políticos, mas sim de, tomando com exemplo o caso MRS, “ (…) uma estratégia de acção (do governo) junto dos grupos económicos ligados à comunicação social.” [in Visão, 14 de Outubro de 2004].
Há quem defenda que embora exista pressão dos grupos económicos tais pressões não impedem que se mantenha a independência editorial.

Quando se analisa a questão da presença dos grupos económicos nos media, deve-se levar em conta que, nesta nova era, o jornalismo só poderá sobreviver também for negócio, fonte de lucro. Como salienta Manuel Castells, convém separar os conceitos Jornal – objecto concreto, mensurável e cada vez mais fonte de negócio, que dá lucro e rege-se pela lógica deste – e Jornalismo – objecto abstracto que se deverá posicionar do lado dos valores, está onde estão os conflitos mas não se deve envolver neles sob risco de perder a confiabilidade, a liberdade e a independência.

Olhando para o caso MRS, devemos analisar todos os ângulos da questão e não se limitar a apontar o dedo aos grupos económicos. A verdade é que o Jornalismo tem sofrido grandes mudanças, sejam elas o que Chaparro apontou como sendo a “Revolução das Fontes”[in Linguagem dos conflitos, Manuel Carlos Chaparro], sejam elas o papel que os grupos económicos assumem no produto final da agenda dos media. No entanto, a “crise” no seio do Jornalismo apresenta outros dimensões e Chaparro salienta exactamente isso quando aponta a necessidade do Jornalismo permanecer um discurso elucidativo independente.

Lembro-me agora de nos terem chamado atenção, numa aula de Jornalismo, para editorial do número um do Diário de Notícias (tão diferente dos jornais actuais) em que não se deixou de colocar ênfase na promessa de veracidade das informações, numa clara referência a um dos valores fundamentais do Jornalismo. Na altura tratava-se de se diferenciarem dos Jornais sensacionalistas. Actualmente a ênfase deverá ser posta também na independência, na liberdade do discurso jornalístico. Trata-se, agora, de se diferenciarem dos valores do mercado.


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